E-book traz à tona o debate sobre o tornar-se homem e reconhecimento da identidade transmasculina
A masculinidade, por um tempo, foi entendida como resultante do convívio familiar, na fase em que o menino desenvolve um relacionamento quase sexual pela mãe e passa a rivalizar, sentir ódio e ciúme do pai pela atenção e cuidados maternos. E, assim, a masculinidade se formaria a partir do momento em que a criança superava o complexo, se reconhecendo como filho e abrindo mão do desejo. O menino passava a acessar e se identificar com o mundo viril do pai e a se interessar por outras mulheres que não a mãe. Na academia, esta visão foi superada, e hoje, se acredita que os valores das masculinidades são internalizações pela práxis social, assumindo configurações as mais variadas nas diferentes classes sociais, nas diferentes culturas, nas diferentes instituições e nas diferentes relações com outros gêneros e com outras masculinidades. Com os estudos de gênero, o termo masculinidade passou a ser empregado no plural para abarcar sua multiplicidade.
“Tornar-se homem: reconhecimento da identidade psicológica transmasculina” é um e-book que aborda o autorreconhecimento e reconhecimento social identitário. A obra de autoria de Davi Miranda e Adelma Pimentel apresenta a jornada de aprendizado dos significados das masculinidades, desvela os caminhos traçados pelos sujeitos ouvidos pelos autores na configuração da própria identidade psicológica. O livro foi editado e publicado pela EdIFPA - Editora do IFPA.
Composto por seis capítulos, 146 páginas, o livro conduz o leitor a fazer um percurso pela experiência de reconhecimento do “Eu” no mundo, a base conceitual e analítica de gênero e reconhecimento, a construção dos discursos patologizantes sobre transexualidade, resistência das masculinidades trans no contexto da masculinidade hegemônica, narrativas de homens trans na pesquisa qualitativa, e a experiência do reconhecimento de si e do outro.
No primeiro capítulo, citando Hannah Arendt, os autores partem do princípio que as igualdades e as diferenças entre os homens lhes permitem se compreender e partilhar conhecimentos ancestrais, do presente e projetar o futuro. Esse equilíbrio entre igualdade e diferença reforça a interação e a coexistência, essenciais para o desenvolvimento humano e social. O capítulo é uma narrativa biográfica que expõe a trajetória da construção identitária de gênero em contexto cultural e histórico, propondo a ampliação da compreensão sobre experiências humanas diversas e suas representações.
No segundo capítulo, os autores buscam romper com o papel de objeto de estudo frequentemente imposto à população trans, posicionando-se como produtores de conhecimento. Essa perspectiva critica o "epistemicídio" e valoriza a produção intelectual de pessoas trans. Além disso, discute-se o fenômeno da transmasculinidade como uma experiência subjetiva e diversa, que varia conforme o contexto de vida de cada indivíduo, destacando as narrativas pessoais como meio de revelar opressões comuns. Os autores contextualizam, ainda, as dificuldades enfrentadas durante a pesquisa, incluindo os impactos da pandemia da COVID-19 nas dinâmicas de interação e realização das entrevistas.
O terceiro capítulo explora a construção histórica e científica da transexualidade e da transgeneridade como categorias identitárias independentes, destacando o papel crucial das ciências médicas e psicológicas nos séculos XVIII e XIX no controle social e patologização dos corpos. A narrativa discute as contribuições de estudiosos como Magnus Hirschfeld, Havelock Ellis e Harry Benjamin, que, ao classificar e estudar identidades trans, ajudaram a dissociar gênero de orientação sexual, mas também contribuíram para sua normatização e estigmatização sob perspectivas patologizantes.
A patologização resultou na imposição de um regime de vigilância e controle biomédico que afeta a autonomia e dignidade das pessoas trans, reforçando estereótipos de gênero e exigindo sua conformidade a normas binárias. O capítulo três também enfatiza como essas práticas históricas moldaram a visão social e política das identidades trans, evidenciando o impacto negativo da psiquiatrização no contexto global e brasileiro. E o fato dos corpos trans-gêneros continuarem sendo objeto de tutela do Estado, que definirá e elegerá quais corpos podem passar por transição de gênero. “A despatologização das identidades de gênero somente pode ocorrer ao se considerar as especificidades, os desejos e a corporeidade das pessoas trans”, afirma os autores.
“Resistência das masculinidades trans no contexto da masculinidade hegemônica”, o quarto capítulo, aborda a construção e a perpetuação das masculinidades hegemônicas e subalternas, destacando as dinâmicas de poder e controle na construção das relações de gênero. A masculinidade hegemônica, descrita como cisgênera, heterossexual, branca e ocidental, é uma idealização normativa sustentada por mecanismos sociais, culturais e performativos que visam reafirmá-la constantemente, mas que nenhum homem real pode alcançar plenamente. Por outro lado, o capítulo explora como as masculinidades subalternas, compostas por grupos marginalizados como homens negros, indígenas, pobres e trans, enfrentam discriminação e desvalorização dentro desse sistema. Também se discute as transmasculinidades, que, embora historicamente invisibilizadas, começam a ganhar reconhecimento a partir da atuação de movimentos sociais e da produção intelectual, trazendo à tona a diversidade e complexidade das experiências de gênero e identidade masculina.
O quinto e último capítulo apresenta três análises de entrevistas sobre a experiência transmasculinas de três homens. A pesquisa foi aprovada por comitê de ética, sob o parecer número 3.579.909/2019. Os entrevistados assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, conforme os aspectos éticos instituídos na Resolução Nº 196/96, versão 2012, do Conselho Nacional de Saúde. As análises levaram em consideração respostas sobre a autodescrição; as memórias da infância e da adolescência; as percepções sobre a não correspondência entre seus sentimentos e as normativas de gênero de nascimento; processo de reconhecimento da sua identidade masculina; os referenciais de masculinidade utilizado pelo entrevistado na construção da identidade de gênero; o significado de ser homem?; o que cada um entende por masculinidade?; modificações corporais para construir a imagem atual e as modificações feitas.
Os autores buscaram nesta obra demonstrar que a percepção do outro interfere radicalmente no autorreconhecimento dos sujeitos, visto que a validação deste reconhecimento é outorgada ao outro. “A situação de opressão a qual os homens trans estão submetidos, em virtude do não reconhecimento, pode gerar severos danos à autoestima deles, à saúde mental e à percepção de si mesmos, de modo que passem a acreditar que o reconhecimento de suas identidades pode ser negociado pela cisnormatividade”.
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