IFPA apresenta projeto sobre pobreza menstrual e sustentabilidade no InovEPT 2025
De acordo com pesquisa do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA, na sigla em inglês), o Brasil tem cerca de 713 mil pessoas que menstruam, mas que vivem em más condições de saneamento em casa, não tendo sequer banheiro ou chuveiro onde vivem. No mesmo relatório, a instituição afirma que mais de 4 milhões de meninas não têm acesso também a itens mínimos de cuidados menstruais nas escolas.
Com base em dados como esses, as professoras Cezarina Maria Nobre e Jaqueline Maria da Silva e a estudante de especialização Talissa Gertrudes de Souza, do Campus Belém do Instituto Federal do Pará (IFPA), desenvolveram o projeto “Estudos sobre pobreza menstrual, tecnologias sociais em saneamento e objetivos de sustentabilidade na Amazônia”.
Segundo uma das pesquisadoras responsáveis, a docente Cezarina Nobre, o projeto constitui-se em uma série de estudos, iniciados em 2022, dentro do universo escolar do município de Belém, a partir de entrevistas com o objetivo de identificar experiências de pobreza menstrual entre as alunas. A finalidade naquele momento era fazer um diagnóstico, identificando a existência desse fenômeno entre as estudantes.
O projeto seguiu e está em sua quarta edição. Foi levado para a comunidade ribeirinha do Rio Cotijuba, no município de Igarapé-Miri, no Pará, envolvendo 19 mulheres da localidade. As pesquisadoras pretendem ainda implantar uma segunda fase com propostas que combatam a precariedade de higiene no período menstrual dessas mulheres de forma sustentável e ecologicamente responsável.
“Nós estamos buscando propor uma solução com o objetivo de desconstruir a política que vem sendo feita de combate à pobreza menstrual, que se limita à entrega do absorvente descartável. A gente quer propor a solução do absorvente reaproveitável, de pano, com o objetivo da sustentabilidade, já que esse não contribui para o aquecimento global por conta do plástico, já que o absorvente, em geral, é plastificado”, explica Cezarina.
Um ponto a se destacar no projeto é que havia a intenção de incluir nas entrevistas o público não menstruante, para entender a percepção dessas pessoas acerca do tema. No entanto, os homens da comunidade estudada se recusaram a participar. “Os homens se recusaram a conceder as entrevistas. Muitas vezes por vergonha, dizendo que esse é um ‘assunto que eu não sei falar’, ‘é só assunto de mulher’. E outros mesmo apresentando uma atitude de deboche, de asco. ‘Eu não vou falar desse assunto, é uma coisa que não tem nada a ver’. ‘Esse assunto é um assunto que não tem nada a ver comigo, não faz parte do meu universo’”, lamenta a docente.
Entre as mulheres entrevistadas, foram constatadas não apenas a falta de elementos que garantisse a boa higienização durante seus ciclos, como o descarte inadequado do material descartável: lá, o destino do lixo, incluindo dos absorventes, é a queimada. “O grande lance do projeto, que está por detrás, é contribuir com que se evidencie que a política de combate à pobreza menstrual, ela não passa simplesmente por doar o absorvente. Ela necessariamente tem que passar pelo saneamento, pela educação também, mas pelo saneamento, garantindo acesso à água potável de forma universal”, completa a pesquisadora.
As falas coletadas em entrevista revelaram ainda a situações de pouco conhecimento, crenças locais, tabus e sexismo, que afetam diretamente as mulheres da comunidade durante o período menstrual. Para a comunidade, a mulher menstruada não pode fazer uma série de atividades, como carregar peso, sair de casa ou banhar-se no rio, por exemplo. No caso do rio, é devido à lenda do Boto, uma vez que a menstruação supostamente atrairia a entidade.
III InovEPT
Com o levantamento desses dados e entrevistas, Cezarina submeteu o trabalho para o III Encontro Nacional de Inovação e Empreendedorismo na Educação Profissional e Tecnológica (InovEPT), que aconteceu de 10 a 12 de junho, no Instituto Federal de Brasília (IFB). O evento, promovido pela Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica (Setec) do Ministério da Educação (MEC), tem como objetivo promover a articulação entre gestores, lideranças e pesquisadores, fomentando o debate para a consolidação de um ecossistema de inovação na educação profissional e tecnológica.
Os trabalhos selecionados e expostos durante o InovEPT estavam alinhados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU). No caso dos estudos de Cezarina e seu grupo, a pesquisa foi relacionada ao ODS 5, que prevê ações sobre a igualdade de gênero.
Mais IFPA no InovEPT
Além do trabalho da professora Cezarina Nobre, o IFPA marcou presença na exposição com outros três projetos. Um deles, intitulado “Habitação ribeirinha saudável da Amazônia”, da professora Eliana Souza Machado Schuber (IFPA), alinhado ao ODS 11 (cidades e comunidades sustentáveis) e já divulgado na página do IFPA na COP 30 (https://cop30.ifpa.edu.br/ods-11-cidades-e-comunidades-sustentaveis/item/55-campus-belem-ribeirizar-ambiencia-do-ribeirinho-amazonico).
Também foram apresentados no evento o projeto “Restauração ambiental: integrando bioeconomia e projetos de REDD+ como estratégia de mitigação das mudanças climáticas e geração de renda em comunidades tradicionais da Amazônia”, de Rodrigo Antonio Pereira Junior, alinhado ao ODS 13 (ação contra a mudança global no clima); e “Projeto Earth: aproveitamento dos resíduos eletrônicos, como ferramenta para o desenvolvimento da consciência ambiental, por meio da produção de materiais artísticos e educacionais, de Rejane de Barros Araújo, alinhado ao ODS 4 (educação de qualidade).