Fertilizantes orgânicos alteram estratégias de aquisição de fósforo e desempenho de jambu
O jambu, planta típica da Amazônia e ingrediente indispensável na culinária regional, vem ganhando destaque internacional não apenas pelo sabor e pela sensação de formigamento que provoca na boca, mas também pelo seu potencial econômico. A planta vem despertando interesse das indústrias farmacêutica, cosmética e alimentícia, graças ao composto bioativo espilantol. Agora, uma nova pesquisa feita no Instituto Federal do Pará (IFPA), campus Castanhal, mostra que o cultivo do jambu pode se tornar ainda mais produtivo e sustentável.
Em forma de artigo, a pesquisa foi publicada em fevereiro de 2026 na revista científica internacional Applied Soil Ecology, da editora Elsevier. Com o título “Native AMF colonization and microbial enzyme-mediated phosphorus mineralization are decoupled in organically fertilized jambu (Acmella oleracea (L.) R. K. Jansen)”, traz resultados inéditos sobre o uso de fertilizantes orgânicos no cultivo da planta.
A pesquisa foi realizada entre fevereiro e abril de 2021, dentro do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC), com apoio financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O experimento utilizou duas variedades de jambu — “Flor Amarela” e “Flor Roxa” — cultivadas em estufa, em vasos preparados com solo amazônico. Foram aplicados três tipos de fertilizantes orgânicos: esterco bovino, vermicomposto e cama aviária. Ao todo, 40 amostras foram analisadas em 70 dias. Do preparo do solo, seleção e plantio de sementes até a floração, cada fase do crescimento das plantas foi documentada em relatórios e por imagens.
Os resultados mostraram que os fertilizantes orgânicos aumentaram a atividade da enzima fosfatase ácida e favoreceram atributos biológicos do solo, como proteínas relacionadas à glomalina, que contribuem para a estrutura e fertilidade. Além disso, houve ganhos expressivos na produtividade: em alguns casos, a produção de matéria seca chegou a crescer quase 90% em relação ao controle.
Por outro lado, os efeitos sobre a colonização de fungos micorrízicos variaram conforme o genótipo. Enquanto a variedade “Flor Amarela” manteve níveis estáveis de colonização, a “Flor Roxa” apresentou redução significativa. Essa dissociação entre colonização micorrízica e mineralização do fósforo sugere um “trade-off funcional”: a planta pode compensar menor colonização fúngica com maior atividade enzimática para garantir nutrientes essenciais.
A pesquisa foi conduzida por Alberto Vinicius S. Rocha e orientada pela professora Gilberta Carneiro Souto. Hoje, ele é egresso do IFPA. Cursou o ensino técnico integrado entre 2013 e 2016 e a graduação em Agronomia de 2016 a 2022 no campus Castanhal. Em seguida, ingressou no mestrado na USP e, atualmente, em 2026, está no doutorado em Luxemburgo. “Minha afiliação no artigo também consta como IFPA, porque o trabalho foi desenvolvido no instituto. Sou grato ao IFPA por tudo que me foi ofertado”, afirmou Rocha.
A pesquisa reforça que o uso de fertilizantes orgânicos, especialmente vermicomposto e cama aviária, pode ser uma alternativa eficiente para aumentar a produtividade do jambu e promover a sustentabilidade no cultivo dessa hortaliça amazônica. Ao mesmo tempo, revela a complexidade das interações entre plantas e microrganismos do solo, abrindo caminho para novas práticas de manejo agrícola.
Com a publicação em uma revista internacional de alto impacto, classificada como Qualis A1 pela CAPES e com fator de impacto 5, o trabalho coloca o IFPA em evidência no cenário científico mundial. A pesquisa não apenas valoriza a produção acadêmica da Amazônia, mas também mostra como ciência e tradição podem caminhar juntas para fortalecer a agricultura sustentável e a economia regional.
Confira a entrevista sobre os resultados do experimento: link da entrevista