IFPA firma parceria com universidades de Moçambique e fortalece caminho para a internacionalização
Mais receptivo e conectado ao mundo. No auditório central do Campus Belém do Instituto Federal do Pará (IFPA), vozes vindas da Amazônia, do Rio Grande do Norte, de Moçambique e da Espanha se encontraram para celebrar algo que ultrapassa fronteiras: o poder da educação de transformar realidades via atividades de extensão.
Foi durante o Seminário Internacional de Pesquisa e Extensão "Trilhas Potiguares Amazônia 2026", realizado na sexta-feira, 19 de junho, que o IFPA deu mais um passo importante rumo à internacionalização ao assinar minuta dos memorandos de entendimento com as universidades moçambicanas Save e Eduardo Mondlane.
O ato buscou formalizar uma parceria que já vinha sendo construída por meio da atuação de pesquisadores e professores das instituições. Agora, novas oportunidades se abrem para projetos conjuntos de pesquisa, extensão e desenvolvimento sustentável.
Segundo o chefe do Departamento de Relações Internacionais do IFPA, Glauco Lira Pereira, a iniciativa fortalece os laços de cooperação entre Brasil e Moçambique e amplia a atuação das instituições dentro da perspectiva do Sul Global.
O seminário teve como tema "Do Rio Grande do Norte à Amazônia e à Moçambique: 30 anos de extensão universitária transformando territórios, fortalecendo comunidades e conectando saberes". E foi exatamente essa conexão que marcou toda a programação.

A solenidade de abertura contou com apresentações da Banda de Música do IFPA Campus Belém, seguida da composição da mesa institucional, que reuniu a então reitora pro tempore da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), Janae Gonçalves; o pró-reitor de Extensão da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Luiz Alves Morais Filho; a representante institucional da Universidade Save, Crisalita Armando Djeco Funes; o representante institucional da Universidade de Murcia, da Espanha, José Javier Aliaga Cárceles; o Diretor-Geral do IFPA campus Belém, Hélio Antônio Lameira de Almeida; o coordenador do Seminário Internacional e coordenador adjunto do Programa Trilhas Potiguares Amazônia da UFRN, Francisco Fransualdo de Azevedo. Nas falas das autoridades, um ponto em comum: a extensão universitária como ferramenta de aproximação entre conhecimento acadêmico e saberes populares.
Após a assinatura dos memorandos, os participantes tiveram a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre Moçambique. A professora Crisalita Armando Djeco Funes, representante da Universidade Save, apresentou aspectos culturais, linguísticos e educacionais do país africano, compartilhando imagens e experiências que despertaram a curiosidade do público e reforçaram a importância do intercâmbio entre povos e instituições.
O seminário também foi um convite para a gestão olhar para os territórios. Ao longo dos últimos dias, estudantes e professores levaram oficinas, minicursos, rodas de conversa e atividades culturais para comunidades de Aurora do Pará, Castanhal, Curuçá, Belém — nas ilhas do Combu e de Outeiro —, São Sebastião da Boa Vista e Tomé-Açu.
As ações fazem parte do Programa Trilhas Potiguares, criado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), que há três décadas promove o encontro entre universidade e sociedade. Com a atuação de professores do IFPA, pela primeira vez, o projeto chegou às comunidades da Amazônia.
"O nosso objetivo foi levar aos territórios o conhecimento produzido em sala de aula", explicou o professor José Ribamar da Cruz Freitas Júnior, coordenador local da iniciativa e docente do Campus Castanhal. Ele informou que foram ofertadas 20 oficinas em seis municípios paraenses.

Ao todo, de acordo com professor José Ribamar, 120 estudantes do IFPA participaram das atividades, desenvolvidas em seis eixos temáticos: meio ambiente, tecnologias sociais e desenvolvimento humano, saúde, educação, cultura, justiça e cidadania.
As histórias compartilhadas durante o painel comemorativo dos 30 anos do Trilhas Potiguares emocionaram o público. A professora Liz Carmem Silva Pereira, do IFPA Campus Castanhal, participante da primeira edição do programa, em 1996, relembrou sua trajetória por meio de poesias e cordéis. Entre versos e fotografias, falou sobre pertencimento, saudade e os laços construídos ao longo de sua caminhada extensionista.
Na sequência, o professor Itamar de Morais Nobre, da UFRN, refletiu sobre o legado de três décadas do programa. Em tom poético, destacou que a extensão exige sensibilidade, escuta e empatia. "Só vale a pena porque é difícil. Se for fácil, não me chame não", disse, arrancando sorrisos e aplausos da plateia.
A internacionalização também ganhou espaço em uma mesa-redonda que reuniu representantes do Brasil, de Moçambique e da Espanha para discutir os desafios da cooperação acadêmica e do desenvolvimento territorial em diferentes contextos.
Para a reitora do IFPA, Ana Paula Palheta, a chegada do Trilhas Potiguares ao Pará representa uma oportunidade de construir relações mais justas entre conhecimento científico e comunidades tradicionais da Amazônia.
"O projeto tem aderência aos princípios institucionais do IFPA. Propõe inclusão, capacitação e oportunidades para que as pessoas decidam, com criticidade, o lugar que querem ocupar no mundo", afirmou.
Na avaliação da professora da UFRA, Janae Gonçalves, o Programa Trilha Potiguares é algo surpreendente e que fortalece a extensão, o ensino, o aprendizado e o relacionamento das instituições de ensino com a sociedade. “É fantástico. É algo que a gente deseja dentro da universidade e quer de fato realizar. Os estudantes mostram o que sabem e aprendem ainda mais com as atividades que desenvolvem na extensão. Aprendem a colocar em prática a teoria”.
Para o coordenador adjunto do Programa Trilhas Potiguares, Francisco Fransualdo, foi uma alegria estar aqui no Pará. “O propósito com este seminário foi nos conhecer, nos reconhecermos e consolidar a cooperação entre as instituições. É tempo de começo, recomeço e cooperação nessa trajetória que envolve a educação como principal instrumento da transformação humana e da sociedade”, explicou.
O professor da Universidade de Murcia, José Javier Aliaga Cárceles, por sua vez, agradeceu ao IFPA, em espanhol, por este momento de diálogo e intercâmbio. Afirmou que as instituições de ensino, por meio da extensão, conectam os pesquisadores à sociedade, transcendem as aulas e geram muito diálogo, cooperação e integração. “Uma ação como esta gera espaço e encontros que permitem compreender e aprender uns com os outros com respeito às diversidades culturais. A pesquisa é também uma ferramenta para construir pontes entre territórios e culturas em diferentes áreas do conhecimento”.
Entre os estudantes, a experiência também deixou marcas. Renato Gonçalves Leão, de 19 anos, aluno de Engenharia de Pesca, participou de uma oficina voltada a pescadores de Curuçá. "Vou levar essa experiência para a vida. Aprendi muito e é muito bom estar em contato com as pessoas", contou.
Já Vinícius Gabriel dos Santos Ribeiro, de 16 anos, estudante do curso Técnico em Meio Ambiente, destacou os aprendizados adquiridos em uma oficina sobre a importância do sono para a saúde e o desempenho escolar. "Pude perceber que esta não é uma oportunidade que todo mundo tem", afirmou.
A professora da UFRN, do Departamento de Fisiologia, Carolina Virgínia Macedo de Azevedo, ministrou a oficina citada por Vinícius. Ela relata que esta foi a primeira vez que participou do Trilhas Potiguares. Durante o evento, levou essa oficina a comunidades de Aurora do Pará, Tomé-Açu e Curuça. O oficina buscou estimular os participantes a relatarem as rotinas diária de sono, os levando a anotar e calcular a duração do sono para refletirem se estão dormindo o suficiente para a própria idade. Depois, por meio de diálogo, todos foram levados a refletir sobre as funções do sono, se estão tendo a qualidade necessária de descanso e se estão dormindo a quantidade adequada à faixa etária.
“O sono desempenha funções muito importantes no corpo humano e sua qualidade reflete na saúde humana”. “A interação com as pessoas aqui foi muito rica, gratificante! Essa atividade contribuiu, com certeza, para a formação dos estudantes de licenciatura que vieram comigo. Para mim, enquanto pesquisadora, me permitiu conhecer melhor a realidade local. Tudo isso servirá para a elaboração de novas oficinas”, finalizou.
Ao final do encontro, ficou a sensação de que as trilhas abertas há 30 anos continuam avançando. Agora, atravessam rios, oceanos e continentes. E conectam, cada vez mais, diferentes territórios por meio da educação, da ciência e da troca de saberes.
Uma jornada que começou no Rio Grande do Norte, encontrou a Amazônia e segue, agora, fortalecendo pontes com Moçambique — porque conhecimento compartilhado é também uma forma de construir futuros.